quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O CAVALEIRO DA ROSA / DER ROSENKAVALIER, Royal Opera House, Londres / London, Janeiro / January 2017

(text in English below)

 O Wagner_fanatic assistiu recentemente a uma récita da ópera O Cavaleiro da Rosa, de Richard Strauss, na Royal Opera House de Londres. Aqui ficam os seus comentários:

Voltei ontem a Londres, 37 meses depois, para o adeus da Renée Fleming a Covent Garden. Por isso a noite foi de relevância grande para o mundo da Ópera.

Fiquei em choque quando cheguei e apanhei aquelas alterações todas no átrio. Confesso que me senti triste porque parecia que aquela já não era a minha Royal Opera... Mas o importante é que tudo o resto se mantém relativamente igual, principalmente a mantida certeza de que sempre que lá se vê Ópera, se vê do melhor que se pode ver.

E que noite excelente! A nova produção do Carsen está um pouco deslocada para a frente no Tempo mas é clássica, com um guarda roupa fenomenal e de grande estilo. Acho que o terceiro acto funcionou muito melhor do que o que habitualmente se vê em outras encenações (incluindo as clássicas) - a estalagem onde o Barão Ochs janta (e planeia o resto que sabemos) com um Octavian disfarçado de criada da Maria Teresa é uma casa de prostituição e em vez de termos esqueletos ou fantasmas a causar-lhe pseudo-alucinações de medo, aqui as escolhas cénicas são mais leves, interessantes e cómicas.


Do ponto de vista da Orquestra, o Andris Nelsons (que está cada vez mais gordo) foi simplesmente brutal. Só lamento que o meu lugar tenha sido na 2ª fila do Stalls Circle, não pela visão que é excelente mas porque alguns pormenores orquestrais perdem a homogeneidade sonora de "todo" ao sobressaírem mais.


A Renée Fleming esteve deslumbrante. Além da sua superlativa interpretação musical e emotiva, a presença em palco, com os vestidos que a produção oferece, realçam a sua ainda beleza da maturidade dos 56 anos. A sua saída de cena no final do primeiro acto em linha recta do centro do palco para o fundo, passando pelas diversas portas do palácio e com a simplesmente perfeita contribuição orquestral para o momento (sem falhas nas entradas ou na dinâmica), foi um momento de arrepiar.






A Alice Coote entrou um pouco contida na voz mas abriu para uma interpretação também fenomenal. A sua acção cénica no 3º acto foi magnífica.


Sophie Bevan foi uma Sophie de arrasar, na minha opinião. A cena da apresentação da Rosa foi, mais uma vez, de arrepiar. Aqueles agudos que caracterizam a sua intervenção nesta passagem foram de uma precisão irrepreensível, com estabilidade ao longo da frase e confesso que me emocionei porque são raras as vezes que alguém consegue este feito (mesmo em gravações). Senti aquela emoção de início rápido que é um misto de consciencialização de que estamos mesmo ali, a ouvir algo que achamos perfeito e onde culmina tudo o que se fez para chegar ali (levantar cedo, o voo a partir às 6h30, a vigilidade forte para vencer o sono de uma semana de trabalho e pouco descanso, a sensação de estarmos vivos!).


Matthew Rose foi um Ochs divinal. Quando entrou parece que marcou o início de uma récita memorável. Até então, e como disse em relação à Coote, achei que se estavam a retrair um pouco em termos de potência de voz. A entrada de Rose, marcou a viragem em intensidade vocal. Acho que vai ser um dos melhores neste papel por muito anos. Tem o porte, tem a classe da voz e a facilidade cénica.


Outros pontos altos: O papel de tenor (Giorgio Berrugi) foi por um cantor que não conheço mas... que voz!!! 



E sempre que houve canto em dueto ou terceto, conseguia-se ouvir cada uma das vozes, sem supremacia de uma ou de outra, em perfeita harmonia de intensidade com a orquestra. O que, no fundo, é o que define a qualidade nestas passagens.







Straussamazing!



DER ROSENKAVALIER, Royal Opera House, London, January 2017

I returned to London yesterday, 37 months later, for Renée Fleming's farewell to Covent Garden. So the night was of great relevance to the world of Opera.

I was shocked when I arrived and picked up all those changes in the lobby. I confess that I felt sad because it seemed that it was no longer my Royal Opera ... But the important thing is that everything else remains relatively the same, especially the certainty that whenever Opera is seen there, one sees the best that can be seen.

And what an excellent night! Carsen's new production is a little off the beaten track in time but it's classic, with a phenomenal and stylish wardrobe. I think the third act worked much better than what is usually seen in other stagings (including the classic ones) - the inn where Baron Ochs dines (and plans the rest we know) with an Octavian disguised as Maria Teresa's maid is a house of prostitution and instead of having skeletons or ghosts causing pseudo-hallucinations of fear, here the scenic choices are lighter, interesting and comical.

From the Orchestra's point of view, Andris Nelsons (who is getting fatter) was simply brutal. I only regret that my place was in the 2nd row of Stalls Circle, not because of the view that was great but because some orchestral details lose the homogeneity of "everything" when they excel more.

Renée Fleming was stunning. In addition to her superlative musical and emotional interpretation, the presence on stage, with the dresses that the production offers, highlight her still beauty of the maturity of 56 years old. Her exit from the scene at the end of the first act in a straight line from the center of the stage to the background, through the various doors of the palace and with the simply perfect orchestral contribution for the moment (without failures in the entrances or the dynamics), was a chilling moment.

Alice Coote started a little contained in the voice but opened for a terrific interpretation too. Her stage performance in the 3rd act was magnificent.

Sophie Bevan was a Sophie of bashing, in my opinion. The scene of the presentation of the rose was once again shivering. Those top notes that characterize her intervention in this passage were of an impeccable precision, with stability throughout and I confess that I was moved because it is rare that somebody gets this achieved (even in recordings). I felt that quick-onset emotion that is a mixture of awareness that we are right there, hearing something that we think is perfect and that everything that was done to get there compensates (getting up early, the flight at 6:30 am, strong vigilance for win the sleep of a week of work and little rest, the feeling of being alive!).

Matthew Rose was a divine Ochs. When he came in it looks like he marked the beginning of a memorable recital. So far, and as I said about Coote, I thought they were shrinking a bit in terms of voice power. Rose's entry marked the turn in vocal intensity. I think he's going to be one of the best in this role for many years. He has postage, has voice class and scenic facility.


Other highlights: The role of tenor (Giorgio Berrugi) was by a singer I did not know ... what a voice !!! And whenever there was singing in a duet or a trio, one could hear each one of the voices, without supremacy of one or the other, in perfect harmony of intensity with the orchestra. What, in the end, is what defines quality in these passages.


Straussamazing!

domingo, 15 de janeiro de 2017

NABUCCO – MetLive in HD. Fundação Gulbenkian, Janeiro / January 2017



Umas breves notas sobre a transmissão da opera Nabucco de G. Verdi que pudemos ver no passado Sábado, numa transmissão em diferido da Metropolitan Opera de Nova Iorque.

A encenação pouco dinâmica de Elijah Moshinsky já tem uns anos. O palco roda entre um cenário rochoso quando mostra os hebreus e outro mais escuro e encimado por um deus dourado para os babilónios. Apesar de grandioso, não é uma abordagem interessante.

(Fotografias / Photos de Marty Sohl, Metropolitan Opera)



Sob a direcção de James Levine a orquestra e coro da Metropolitan Opera foram excelentes. Tivemos direito à repetição do coro de abertura do 4º acto - Va, pensiero

O baixo russo Dmitri Belosselskiy foi um Zaccaria interessante, mas fraco no registo mais grave, quase inexistente. O tenor americano Russell Thomas cantou o pequeno papel de Ismaele com qualidade, mas aparentemente em esforço. Bem melhor foi a mezzo americana Jamie Barton como Fenena, também num papel pequeno mas particularmente bem cantado, nomeadamente no 4º acto. A Abigaille, principal personagem da ópera, foi interpretada pela soprano ucraniana Liudmyla Monastyrska. A cantora é um portento vocal, em força, amplitude e afinação, e os agudos são excelentes. Contudo, falta-lhe dramatismo e alguma doçura na voz. A interpretação é sempre dura, ao estilo antigo das cantoras do leste da Europa.



Deixo para o fim o grande Placido Domingo, a caminho dos 80 anos, um dos maiores nomes da Ópera das últimas décadas. Tenho enorme respeito por ele e, nesta récita, no papel de Nabucco, foi o único dos solistas que representou a personagem, não se limitando ao canto. Mas, em mais uma interpretação de barítono, voltou a não soar como seria desejável porque Domingo é um tenor e, nestas interpretações, sem agudos.



***


NABUCCO – MetLive in HD, January 2017

A few notes on the transmission of G. Verdi's opera Nabucco that we were able to see last Saturday, in a delayed broadcast of the Metropolitan Opera of New York.

Elijah Moshinsky's short-lived direction is a few years old. The stage swirls among a rocky setting when it shows the Hebrews and a darker and topped by a golden god for the Babylonians. Although grandiose, it is not an interesting approach.

Under the direction of James Levine the Orchestra and Choir of the Metropolitan Opera were excellent. We heard twice the opening chorus of the 4th act - Va, pensiero.

Russian bass Dmitri Belosselskiy was an interesting Zaccaria but weak in the lower registrer, almost nonexistent. American tenor Russell Thomas sang the small role of Ismaele with quality, but apparently in effort. Jamie Barton was much better as Fenena, also in a small role but particularly well sung, notably in the 4th act. Abigaille, the main character of the opera, was interpreted by Ukrainian soprano Liudmyla Monastyrska. The singer is a vocal portent, in strength, amplitude and tuning, and the top notes are excellent. However, she lacks theatrical presence and some vocal sweetness. The interpretation is always hard, in the old style of the singers of eastern Europe.

I leave to the end the great Placido Domingo, on his way to his 80s, one of the greatest names of the Opera of the last decades. I have great respect for him and in this performance, in the role of Nabucco, he was the only one of the soloists who interpreted the character, not limited to singing. But in another interpretation of baritone, he did not sound as it would be desirable because Domingo is a tenor, and in these interpretations, without top notes.


***

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

LA CENERENTOLA, Wiener Staatsoper, Novembro / November 2016

(review in English below)

La Cenerentola, de G. Rossini, esteve em cena na Ópera Estatal de Viena em Novembro de 2016, numa produção de Sven-Eric Bechtolf.

A encenação é vistosa e colorida. A acção foi trazida para meados da década passada, para um país imaginário mas próximo da Itália. A bandeira tem as cores italianas mas também uma foice e um escorpião. O início passa-se na casa de Don Magnifico e suas 3 filhas, que mais parece um cabeleireiro da época. Don Ramiro aparece como o motorista do Dandini, um cantor pop. A acção passa depois para um stand de automóveis de luxo da época, com o escritório no primeiro andar, onde está uma fotografia do defunto rei. Tudo decorre entre estes dois cenários e, no final, quando Don Ramiro casa com Angelina, a fotografia de ambos é colocada em substituição da outra. Não sendo uma encenação particularmente cómica, vê-se com agrado.



A direcção musical, sem grande espectacularidade, foi da maestrina  Speranza Scappucci. A Orquestra e Coro da ópera de Viena estiveram ao mais alto nível.



Don Ramiro foi interpretado pelo tenor russo Maxim Mironov. Tem um timbre bonito mas a voz é pequena e, por vezes, foi abafada pela orquestra. O cantor é novo, alto, magro e muito ágil, o que ajudou a sua prestação cénica.



Elena Maximova, mezzo russo, fez uma Angelina de voz muito escura, potente, e sempre bem colocada. Na coloratura poderia ter sido melhor mas ainda assim esteve muito bem, ajudada pela sua figura jovem, ágil e muito elegante.



Don Magnifico foi muito bem interpretado pelo barítono italiano Renato Girolami.



Também outro barítono italiano, Alessio Arduini, esteve em grande forma na interpretação do Dandini. O cantor é jovem, tem uma voz bonita e bem audível e em cena esteve sempre bem.



A melhor interpretação vocal da noite foi, para mim, do baixo italiano Michele Pertusi, como Alidoro. Alia um belo timbre a uma potência e afinação irrepreensíveis, o que tornou todas as suas intervenções excelentes.



Também bem estiveram os sopranos Eri Nakamura como Clorinda  e Catherine Trottmann como Tisbe.







****



LA CENERENTOLA, Wiener Staatsoper, November 2016

La Cenerentola by G. Rossini was on stage at the Vienna State Opera in November 2016 in a production by Sven-Eric Bechtolf.

The staging is colorful and pleasant. The action was brought into the middle of the last century, to an imaginary country close to Italy. The flag has the Italian colors but also a scythe and a scorpion. The beginning happens in the house of Don Magnifico and his 3 daughters, that more looks like a hairdresser of the time. Don Ramiro appears as the driver of Dandini, a pop singer. The action then moves to a luxury car booth, with the office on the first floor, where is a photograph of the deceased king. Everything happens between these two scenarios and, at the end, when Don Ramiro marries Angelina, the photograph of both is placed instead of the other. Not being a particularly comic staging, it was pleasant.

The musical direction, without being spectacular, was of Speranza Scappucci. The Vienna Opera Orchestra and Choir were at the highest level.

Don Ramiro was sung by the Russian tenor Maxim Mironov. He has a nice timbre but the voice is small and sometimes it was muffled by the orchestra. The singer is young, tall, slim and very agile, which helped his scenic performance.

Elena Maximova, Russian mezzo, was an Angelina of very dark, powerful, and always well tuned voice. In the coloratura she could have been better but still she was very well, helped by her young, agile and very elegant figure.

Don Magnifico was very well interpreted by the Italian baritone Renato Girolami.

Also another Italian baritone, Alessio Arduini, offered a great interpretation of Dandini. The singer is young, has a beautiful voice and is well audible and on stage was always good.

The best vocal interpretation of the night was, for me, Italian bass Michele Pertusi, as Alidoro. He combines a beautiful tone with impeccable power and tuning, which made all his interventions excellent.

Also well were Sopranos Eri Nakamura as Clorinda and Catherine Trottmann as Tisbe.


****