domingo, 1 de maio de 2016

ELEKTRA de Richard Strauss — Estreia da nova produção da Wiener Staatsoper, 29.03.2015


A ópera Elektra que Richard Strauss estreou em Dresden a 29 de Janeiro de 1909 foi apresentada numa nova produção e com elenco de luxo na Wiener Staatsoper (WSO). Trata-se de uma ópera trágica num único acto com libreto de Hugo von Hofmannsthal cuja acção se passa em Micenas imediatamente após a Guerra de Tróia. Drama intenso de vingança, ódio e intriga, de contemporaneidade eterna, é uma ópera de sempre e para sempre.


A música está para além do moderno e foi composta de modo muito arrojado para uma orquestra de 111 instrumentos. Esta funciona como um dos elementos essenciais para que a ópera possa desmultiplicar-se em tonalidades, inventar-se em caleidoscópicos cromatismos e criar-se em dissonâncias. Exige por isso uma capacidade musical e interpretativa de excelência aos músicos. Acresce que, à sua imensa expressividade, é acompanhada por um libreto que permite o desenrolar da acção trágica com uma intensidade dramática difícil de encontrar e que obriga a explorar ao máximo a capacidade técnica dos cantores. Elektra, personagem central e quase omnipresente, é levada a um extremo doentio que só um soprano dramático estratosférico consegue criar de modo credível e vocalmente elegante. É, pois, uma obra fantástica e fundamental da história da música do século XX.


A nova produção da WSO esteve a cargo de Uwe Eric Laufenberg. E foi precisamente aqui que começou a polémica. Os austríacos não permitem que se maltrate o seu bem-amado Strauss. A encenação é objectivamente má. O cenário é escuro, sombrio, húmido. É uma casa, um armazém, um espaço de aspecto abandonado. Em ambos os extremos, uma parede de azulejos velhos e cinzentos, ao jeito de balneário. Á esquerda, por trás da parede, um amontoado de carvão acentua a escuridão do cenário e a ideia de sujidade. À direita, um duplo elevador panorâmico percorre três andares. No da esquerda, a palavra «Totet» (mortes) mancha de sangue o elevador. É aqui decorre a acção.


Enquanto criadas vestidas austeramente de cinzento comentam o comportamento estranho de Elektra, várias mulheres nuas e indefesas são banhadas com mangueiras pelas criadas que assumem uma postura repressora, empurrando-a contra a parede. Parecia o banho que os nazis davam aos judeus antes de os fazerem entrar para aquela hedionda invenção que foi a câmara de gás. Elektra, muito andrógina, surge de fato escuro, desajeitada e estranha. Chrysothemis vem vestida de branco e toma uma postura mais jovial e inocente. Mas sem mistério. Clytemnestra vem com um penteado com rolinhos e, apesar da sua manifesta inferioridade física por vir sentada numa cadeira de rodas, assume um estilo empertigado e desafiante. Os elementos cénicos são pobres. Alguns jogos de luzes evidentes, uma mala rectangular de couro onde Elektra se senta, mas que nada transporta de relevante, que nada desvenda.


Os assassinatos são cometidos nos elevadores, enquanto corpos ensanguentados sobem e descem freneticamente. No fim, na cena final de Elektra, surgem bailarinos aos pares que dançam. Elektra une-se a estes. Dança e desaparece numa correria no fundo do palco sob o olhar da irmã que, ao canto, parece não compreender o que se passa. E a ópera acaba sem que ninguém perceba para que foi isto, destituída de coerência ou de inovação, vazia de genialidade. O público vienense — habitualmente simpático — fê-lo notar com uma valente vaia aos encenadores que poderão ver no vídeo final (6:55). Eu nunca havia ouvido tal, mas creio que foi merecido. Aqui imperou a decepção e o desinteresse.

A Orquestra da WSO foi dirigida por Franz Welser-Möst. Mas também a sua interpretação decepcionou. Dura e constantemente em forte, pouco amigável para os cantores (mas não se notou!), sem fazer brilhar os cromatismos fundamentais desta partitura, sem elegância e desmultiplicação de sons, a interpretação nunca fez jus à genialidade de Strauss. O público também o fez notar ao maestro, ainda que com menos impetuosidade (6min:20s).


Falk Struckmann fez de Oreste. Vestia-se de sobretudo e assumia, com a sua elevada estatura, uma postura austera e distante. Ordena o assassinato com frieza e desaparece. A encenação creio que o diminui vocalmente, conquanto tenha sido competente e agradável ao ouvido.


Anne Schwanewilms foi uma Chrysothemis vocalmente brilhante. Voz potentíssima, sempre sobre a orquestra, agudo cristalino e com excelente expressividade. Interpretação global de excelência.


O mesmo se pode dizer da Clytemnestra de Anna Larsson. Vocalmente muito intensa, sem falhas, e cenicamente arrogante e ao mesmo tempo indefesa e cheia de dúvidas, atormentada pelo seu passado, o que é representado pela sua diminuição física: está em cadeira de rodas. Outra grandíssima interpretação.


Para o fim, como de costume, o melhor. Nina Stemme. Dois nomes de uma soprano estratosférica. Como o papel exige. Voz sublime de agudos pontudos, cristalinos, com uma coluna de som inacreditável, técnica perfeita, tessitura óptima, graves escuros, sombrios, pesados. Nem um único grito, nem uma estridência a mais. Intensa, doentia, neurótica, vingativa, fria e quente ao mesmo tempo. Uma Elektra de arrepiar na cena final. Em tudo mais-que-perfeita e ao nível de — até mesmo a ofuscar um bocadinho — Birgit Nilsson. Marcará uma era neste papel. Os 25 minutos de aplausos não foram à toa.


E eu tive o privilégio de ouvir ao vivo aquela que é uma das melhores interpretações de sempre do papel de Elektra, daquelas que apagam da memória uma encenação que se perde nos circuitos fantásticos da memória indelevelmente marcados por Nina Stemme.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

“PARSIFAL”, Staatsoper unter den Linden no Schiller Theater, Berlim, Março 25, 2016/ March 25, 2016

Capa do Programa : Cavaleiros do Graal e Escudeiros. Foto: Ruth Walz (17 de Março de 2015), distribuído 2016.

(English version below)

Autor: De Moura MC, Lisboa

O “Fanáticos da Ópera” agradece a De Moura MC mais um texto de qualidade superlativa que muito enriquece o blogue e os seus leitores.

Assisti ao PARSIFAL no Schiller Theater, em 25 de Março de 2016. Parsifal, “uma peça de festival para a consagração de um palco “ (“ein Bühnenweihfestspiel “) como intitulado por Wagner, foi criada para o seu teatro de Bayreuth onde estreou em 26  Julho de 1882. É a ultima opera de Wagner. Sabe-se que Wagner encontrou a história de Parsifal (Parzivâl) num poema épico de Wolfram von Eschenbach, do século XIII, que leu em 1845. A opera teve uma longa gestação, Wagner estudou outros textos medievais e a “Estoire du Graal” de  Chréthien de Troyes. Em 1877 completa a versão final. Praticamente todos os aspectos da opera tem sido objecto de controvérsia. Para uns uma obra sublime,  essencialmente religiosa, para outros uma opera sacrílega, de erotismo religioso. Ainda hoje Parsifal é apresentada em teatros de opera de todo o mundo como um evento incluído na Páscoa. Como este Parsifal que vi na Sexta-Feira Santa integrado no Berlin Festtage 2016.

A acção decorre no que parece ser uma região remota no norte da Espanha num tempo medieval, ou talvez mítico. Aqui se encontra o Castelo de Montsalvat onde vivem os Cavaleiros do Graal. Amfortas é o guardião dos Cavaleiros mas está tão abalado pelos seus pecados e as suas limitações espirituais, que se considera indigno de celebrar o culto do Graal. Os Cavaleiros desiludidos transportam Amfortas para o tratamento de uma ferida que não cura. Parsifal, um jovem ignorante de tudo (nem sabe o nome), chega ao reino do Graal. O que sabe desta comunidade   conta-lhe um Cavaleiro mais idoso, Gurnemanz, que suspeita que ele pode ser o “tolo inocente” da profecia , o que vai aprender a compaixão, ser capaz de curar Amfortas e salvar a comunidade.


Palco do Teatro Schiller, Berlim, antes do início da opera Parsifal , Março 25, 2016

Wagner introduz na história uma personagem crucial. Kundry é uma mulher intemporal e amaldiçoada, corresponde  ao arquétipo feminino do “Judeu Errante“. Perpetuamente atormentada consigo própria Kundry viaja entre dois mundos e muitas vidas. Vive nos arredores do Castelo, serve os Cavaleiros com humildade, leva mensagens aos cruzados distantes, e regressa com balsamos para curar a ferida de Amfortas. Kundry anseia pela redenção e libertar-se de uma maldição passada pela morte. Desaparece regularmente e entra nos domínios do mágico Klingsor que a utiliza como escrava  sexual:  seduzir os Cavaleiros do Graal que se desviam no seu território. Amfortas não resistiu à beleza de Kundry. Klingsor tirou-lhe a lança sagrada e provocou a ferida que não fecha. Nenhum tratamento pode curar Amfortas, mas uma visão anuncia a chegada de um tolo, ignorante e de muita compaixão. Todos esperam o redentor...

Podem ler uma extensa sinopse em língua portuguesa, bem como o libreto traduzido, num link incluído pelo “Fanático Um” numa  recente critica de Parsifal. 
  

Mattias Hölle (Titurel), Wolfgang Koch ( Amfortas ) Foto: Ruth Walz, cena do final do I Acto.

Gostei imenso da encenação do russo Dmitri Tcherniakov, que levanta varias questões na interpretação do drama musical sem pretender apresentar soluções definitivas. A sua visão de um culto fechado sobre si mesmo, destinado a repetir os seus rituais com uma intensidade doentia, é irresistível e inquietante. Na concepção de Tcherniakov estamos perante uma comunidade de teologia Cristã que se desencaminhou. No presente, num local incerto, talvez na Rússia. A comunidade continua a querer acreditar ou pelo menos comporta-se como se ainda acredite. Um mundo de homens russos “santos”,  semelhantes aos Crentes Velhos da opera “Khovanshchina”. Amfortas identifica-se mais com a figura de Cristo, do que em outras das produções que vi. Perturbador, na cena final do acto I, vemos não só a ferida de Amfortas a sangrar mas também uma certa forma de transubstanciação reversa do seu próprio sangue. O sangue é retirado e misturado com água (?) no cálice e depois distribuído pelos membros que ficam revigorados.  Ainda mais intrigante, esta cerimónia é dirigida pelo Rei Titurel, um ditador sinistro. Os membros da comunidade querem de forma desesperada que Titurel os toque. É chocante a forma como Amfortas é ignorado pelos companheiros depois da cerimónia violenta. Parsifal, jovem ignorante, de mochila ás costas,  não entende nada do que vê e Gurnemanz expulsa-o.  


Andreas Schager ( Parsifal) , Tómas Tómasson ( Klingsor), ao fundo as Meninas Flor. Violenta morte de Klingsor. II Acto. Opera Critic  Internet)

O segundo acto, no mesmo cenário do I Acto, bem iluminado, de  cores claras e certa aura de mistério, apresenta um culto paralelo. Tcherniakov vai explorar a sexualidade, principalmente as tendências pedófilas da sociedade actual. O mágico Klingsor, construiu um refúgio para si, um mundo feminino, onde vive com as suas inúmeras filhas, as Meninas Flores. As Meninas Flores não são as tentadoras habituais, mas um grupo de raparigas, todas de vestidos floridos; o efeito é arrepiante. Um velho, repugnante e nervoso, a verdadeira imagem do monstro pedófilo, distribui  balões e bonecas. Kundry, uma filha mais velha ou uma perceptora (?) deste  estranho “kindergarten”,  é também abusada por Klingsor, porque está sob o seu domínio. Klingsor anuncia-lhe a chegada do herói puro que ela deve seduzir. Kundry usa uma táctica de sedução Freudiana e aborda o passado de Parsifal, a educação pela mãe que o adorava, encenando as suas memórias. Herzeleide e o filho eram muito próximos, talvez demasiado. A mãe fica furiosa quando vê o primeiro contacto sexual do adolescente com uma rapariga. O jovem foge e abandona a mãe.  Parsifal pensa que é culpado da morte da mãe e fica desesperado. Para confortar Parsifal,  Kundry abre-lhe os braços. A confrontação Kundry/Parsifal está brilhantemente encenada. O que se passa realmente  fica por esclarecer porque o momento do “longo beijo“ – ou talvez mais do que um beijo, ocorre fora do palco. A transformação que provoca não deixa duvidas: o conflito brutal entre um homem que rejeita o sexo e uma mulher ofendida. Quando surge Klingsor para ajudar Kundry, Parsifal com a lança mata-o brutalmente.   


René Pape ( Gurnemanz ) e Waltraud Meier ( Kundry ) Inicio do III Acto. Foto: Ruth Walz.

No Acto III, passaram-se vários anos. A comunidade está ao abandono. Não há mais ritual.  Aparece um desconhecido e só mais tarde Gurnemanz e Kundry reconhecem Parsifal. Os olhares entre Parsifal e Kundry  e os contactos físicos discretos e meigos de ambos, sugerem um enamoramento. Os membros desta comunidade perdida, sem saber da chegada de Parsifal com a lança sagrada, reúnem-se para tentar mais uma vez a cerimónia da partilha. A fúria raivosa de Amfortas contra o cadáver de Titurel.  Rejeita tudo. Na sequência final do libreto de Wagner, Parsifal cura a ferida de Amfortas com a lança sagrada, torna-se o seu sucessor e preside pela primeira vez ao Graal. Na encenação de Tcherniakov não é assim. Parsifal entrega a lança a Anfortas. Kundry abraça-se amorosamente a Amfortas. Expira suavemente. Sugestão de que Gurnemanz a tenha morto pelas costas? Parsifal com Kundry nos seus braços afasta-se e sai. A comunidade entra num transe extático. A sobrevivência dos fieis não parece estar assegurada.  Quem foi redimido? A redenção  parece ser uma ilusão?

Esta produção, apresentada pela primeira vez no Berlin Festtage de 2015, dirigida por Daniel Barenboim, respeita a obra de Wagner, a sua história e os seus significados, mesmo quando  Tcherniakov diverge em alguns aspectos particulares do libreto. Merece destaque a riqueza simbólica dos cenários, concebidos por Tcherniakov,  a colaboração notável de Elena Zaytseva (figurinos) e de Gleb Filshtinsky (desenho de luzes). Importante o trabalho do dramaturgo Jens Schroth, nos detalhes da encenação e da régie milimétrica.


Membros do coro da Staatsoper. Imagem final. Foto: Ruth Walz.

Um elenco de excelência. Andreas Schager (Parsifal) confirmou a sua reputação de melhor heldentenor do momento. Um timbre belíssimo, voz de enorme qualidade, inteiramente dedicada ao texto. Excelente em cena, bem no adolescente tímido, depois transformado num  homem de paz (ou de fanatismo?). Waltraud Meier é Kundry. Será sempre especial. Foi o papel que a tornou famosa em Wagner e em Bayreuth. A sua voz tem um timbre impar, a dicção impecável e as suas qualidades de actriz extraordinária - para mais com um refulgente registo dos agudos, raro numa mezzo, fizeram dela uma das mais importantes cantoras wagnerianas das ultimas décadas. Galvanizou a audiência do Schiller Theater,   grande ovação de pé no final. Baixo alemão René Pape (Gurnemanz), excepcional, cantou com beleza e autoridade, dicção incisiva. Barítono alemão Wolfgang Koch (Amfortas) emocionante, soou por vezes como  Wotan.   Fez sentir a agonia imensa de Amfortas. Barítono islandês Tómas Tómasson (Klingsor) e o baixo alemão Matthias Hölle (Titurel), alto nível. Coro da StaatsOperanChor ( Director Martin Wright) soberbo.

Daniel Barenboim domina, como nenhum  dos outros maestros Wagnerianos do momento, a partitura belíssima de Parsifal. Maestro superlativo teve uma interpretação extraordinária que manteve a um nível impressionante durante toda a longa duração, mais de cinco horas, do Parsifal. Poucos condutores sector e designer russo Dimitri Tner russo Dimitri tcherniakov diverge em alguns aspectos particulares do libreto. ctura dramaticão capazes de manter o Prelúdio num ritmo tão lento sem sacrificar a intensidade; menos ainda os que tem o sentido fino de como cada momento se encaixa na grande arquitetura dramática de Wagner. Barenboim sublinha os mais pequenos detalhes, doseia força e potência, as sonoridades, os silêncios, englobando o todo num grande elã. O crescendo do Encantamento da Sexta Feira Santa, permanece um dos grandes momentos da sua osmose excepcional com o drama musical de Wagner. Staatskapelle Berlin soberba. Interpretação sublime.


Aplauso final : Esq. para Dir. : Meninas-Flor (quatro), Tómas Tómasson (Klingsor), René Pape (Gurnemanz), Wolfgang Koch (Amfortas), Waltraud Meier ( Kundry), Maestro Daniel Barenboim, Andreas Schager (Parsifal), Matthias Hölle (Titurel), Cavaleiros (dois). Ao fundo a orquestra da Staatskapelle Berlin.

Em resumo, há uma grande sinergia  entre a interpretação musical, a actuação dos cantores e a encenação fascinante. Sobretudo a colaboração inteligente entre o maestro e o encenador: em múltiplos tempos, a riqueza e a força da partitura é acentuada por gestos, movimentos ou agrupamento das personagens. Talvez o melhor Parsifal que ouvi e vi até ao momento.  

  Aplauso final (destaque): Wolfgang Koch ( Amfortas ), Waltraud Meier (Kundry), Maestro Daniel Barenboim, Andreas Schager (Parsifal).




“PARSIFAL”, Staatsoper unter den Linden  at the Schiller Theater, March 25, 2016.

De Moura MC , Lisboa

I saw the performance of PARSIFAL at the Schiller Theater, on   25 March 2016. Parsifal  “a festival play with which to dedicate a stage” (a literal translation of “Bühnenweihfestspiel “) as Wagner called the work, was created for his theatre in Bayreuth where it was first performed on 1882.  It is Wagner´s last opera. Wagner found the story of Parsifal (Parzivâl) on the epic poem by Wolfram von Eschenbach , from the XIII century, that he read in 1845. This opera had a long gestation. Wagner studied other medieval texts and “Estoire du Graal“ by Chréthien de Troyes. He completed the libretto in 1877. Practically all the aspects of this opera have been subject of controversy. For some it is a sublime work, entirely religious, for others a sacrilegious opera, full of religious eroticism. Even today, Parsifal is presented in many theatres throughout the world as an event included in Easter. As it happened with the Parsifal I saw, at the Berlin Festtage 2016 , on Good Friday.

The story occurs in what appears to be a remote region of Northern Spain in medieval, or perhaps mythic, times. There stands the Castle of Monsalvat where the knights of the Grail live. Amfortas is the leader of the knights but is so shattered by his own sins and spiritual shortcomings that he feels unworthy of celebrating the cult of the Grail. Carried on a sickbed by his dispirited knights Amfortas suffers from a wound that will not heal. Parsifal, a young forest boy, who knows nothing, even his own name, is led to the scene. What he knows about this closed community is told to him by a senior knight (Gurnemanz). Gurnemanz wonders whether Parsifal could be the innocent fool who, it has been prophesized, will learn compassion and bring healing to Amfortas and save the brotherhood of knights.

Wagner introduces in the plot a pivotal character: Kundry is an ageless and cursed woman, a feminine counterpart of the “Wandering Jew”. Perpetually tormented with herself she wanders between two worlds and many lives. She lives in the outskirts of the castle, serves the knights with humility, carries messages to crusaders in distant places returning with healing balms for Anfortas wound. Kundry longs for redemption and release from an age-old curse that condemns her. She regularly disappears and enters into the lands of the magician Klingsor who knows how to kindle her seductive passions and uses her as a sexual slave. Klingsor forces her to seduce the knights that enter his den. Amfortas did not resist the beautiful Kundry that Klinsor sent him. Klingsor stole the holy spear and injured Amfortas with a side wound that refuses to heal. No treatment can heal Amfortas but a prophecy announces that the wound can only be healed by a “pure fool, enlightened by compassion“. Everything awaits the redeemer…

You can read an extensive synopsis in English, for example, on Wikipedia.

I found the Berlin Festtage 2016 production of Parsifal challenging and thought-provoking. In his staging the Russian director Dmitri Tcherniakov poses more questions than he answers, but his vision of an inward-looking cult, destined to repeat its rituals with a sickening intensity, is compelling and disquieting. In his vision there is here a Christian theological community gone wrong. Set in the present day, in a forsaken location, may be Russia. Gurnemanz and the knights are part of a cult or sect, shut off from the outside world. The crowd continues to believe or at least act as if still believed. A world of Russian holy men, like the Old Believers in the opera  “Khovanshchina”. Amfortas is identified more with the figure of Christ that in previous productions I have seen. More disturbingly, we see during the first act finale not only Amfortas´s wound bleeding but also some form of reverse transubstantiation of his own blood. The “Grail itself”, a chalice filled with holy water (?) and blood from the wound of Amfortas, provided glorious renewal as the knights drank from it.   All is commanded by King Titurel, a sinister dictator. The knights are desperate for him to touch them. It is appalling how they ignore Amfortas after this violent ceremony. Parsifal, an ignorant teenager, a backpacker, does not understand what he has seen and Gurnemanz dismisses him.  
  
The second Act, visually the same version of the Act I set, but well lit and eerily white walled, presents a parallel cult. Tcherniakov is exploring sexuality in a different world, the paedophiliac tendencies of our present society. The magician Klingsor has created a realm of his own, where he lives with many women, his countless daughters, the Flower Maidens. The Flower Maidens are not the traditional temptresses, but a crowd of girls, all in floral dresses; the effect is chilling. A dirty and nervous old man, the very image of the paedophile monster, distributes to them balloons and dolls. Kundry, an older daughter or a preceptor (?) in this strange kindergarten, is also abused, and remains in his power. Klingsor announces that the pure hero is approaching and that she must seduce him. Kundry uses a Freudian seduction strategy and reminds Parsifal of his past, the education by his loving mother, and stages his memories.  Herzeleide and his son were close, perhaps to close. The mother reacts furiously when she sees his boy first sexual exploration with a girl.  The youngster runs away from home. Parsifal thinks he is guilty of his mothers’ death and despairs. To comfort Parsifal, Kundry opens his arms to him. The Kundry/Parsifal confrontation is brilliantly handled. Quite what happens remains unclear, since “the long kiss”, or is it more than that? takes place off stage. The transformation it effects leaves no doubts; the brutal conflict between a man who refuses sex and a woman that feels hurt. When Klingsor arrives to help Kundry,  Parsifal kills him brutally with the spear.

Third act, many years have passed. The order has disintegrated. The knights no longer gather for service, everything is abandoned. A stranger appears. Gurnemanz and Kundry fail to recognize him as Parsifal. The glimpses and the light physical touches between Parsifal and Kundry suggest a love fascination? The knights, unaware of Parsifal arrival with the sacred spear, meet again for a last ceremony; they enforce Amfortas that enrages against Titurel dead body. Rejects everything. In the final sequence of the Wagner´s drama, Parsifal steps forward and touching the wound of Amfortas with the sacred spear heals it, becomes his successor and presides for the first time the cult of the Grail.  In Tcherniakov staging it is not so.  Parsifal suddenly arrives and returns the spear to Amfortas. Kundry grasps Amfortas in a carnal embrace and she expires. Killed at Gurnemanz´s hand? Parsifal carries her in his arms and leaves the community. The remaining knights quiver in frenzy ecstasy. The survival of the believers is not so assured.  Who is redeemed?  Redemption, it seems, is only an illusion.

This production, first performed in the Berlin Festtage 2015, conducted by Daniel Barenboim, is respectful of the work, its history and meanings, even when the Russian designer Tcherniakov diverges from some of the libretto’s particulars. I was impressed by the symbolic detail of the scenery, all done by Tcherniakov, and the impressive work by Elena Zaytseva, (costumes) and Gleb Filshtinsky (lightening). Jens Schroth was the splendid dramaturge that gave support to the designer and the stunning precise régie of Tcherniakov.

An excellent cast. Andreas Schager confirms his reputation as the best Heldentenor of the moment. Beautiful tone,voice of enormous quality, dedicated to the text. A superior scenic performance from the timid adolescent, later a transformed  man of peace (or of fanaticism?). Waltraud Meier is Kundry. She will always be special. It was this role that made her famous in Wagner and in Bayreuth. The voice has an unique tone, a faultless diction, and her quality of a natural stage animal, associated with a superior acute registry, rare in a mezzo, made her one of the most important Wagnerian singers of the last decades. Her magnetic presence galvanized the audience of the Schiller Theater, receiving a loud standing ovation at the end.

The German bass René Pape (Gurnemanz) was exceptional, beautiful and authoritative singing and diction crisp. The German baritone Wolfgang Koch (Amfortas) was moving, sometimes sounded like a Wotan. Koch genuinely touched the heart by highlighting Amfortas’ intense agony. The Iceland baritone Tómas Tómasson (Klingsor), and the German bass Matthias Hölle (Tirurel), both great. The choral singing ( StaatsOperanChor) and acting were of the highest standard, a credit to Tcherniakov, to Barenboim and to the chorus director, Martin Wright.

Daniel Barenboim feels and controls, as no other Wagnerian conductor of the moment, the beautiful score of Parsifal. A superlative maestro, he delivers an extraordinary performance that maintained a terrifying level of focus for the whole of Parsifal’s more than five-hour duration. There are few conductors who could take the Prelude at such a slow pace without sacrificing any of its intensity; there are even fewer who have such a keen sense of how each moment fits into Wagner’s larger dramatic architecture. Barenboim emphasizes the smallest details, doses the force and potency, the sonorities, the silences, mixing them all in a great élan. The crescendo of the Enchantment of Good Friday remains one of the great moments of his exceptional osmosis with Wagner´s musical drama. The Staatskapelle Berlin sounded superb.  An amazing performance. 


In summary, there was a complete synergy between the musical performance, the acting, the singing and the compelling staging. Above all the imaginative collaboration of conductor and director: time after times, the power of the score was enhanced by gestures, movements or groupings of the characters. This was most probably the best “Parsifal” I have ever heard and seen.