Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

PAGLIACI, Zürich Opernhaus, Janeiro de 2013 /January 2013




 (review in english below)

Pagliaci com música e libretto de Ruggero Leoncavallo, é uma obra do verismo italiano, em que a ficção se confunde com a realidade. Numa troupe de commedia dell’arte, Nedda, a jovem mulher de Canio, o palhaço, está apaixonada por Sílvio, um jovem camponês. Tonio, membro da troupe, é rejeitado por Nedda e denuncia-a ao marido Canio. No final e em plena representação da comédia, mata-os, terminando o espectáculo e a ópera e com a expressão “La commedia è finita”.


A encenação de Grischa Asagaroff é muito boa, cheia de cor, com saltimbancos e todo o ambiente adequado ao enredo. Também a movimentação em palco e os cenários são muito bem conseguidos.


O maestro Alexander Vedernikov ofereceu-nos uma bela direcção da obra.


O soprano Elena Mousc foi excelente como Nedda. A voz é potente, afinada e expressiva. A actuação cénica também de grande nível.


O tenor Zoran Todorovich tem uma voz excelente, poderosa, de timbre muito agradável e, sobretudo, muito expressiva Ofereceu-nos um Canio dilacerado pela desconfiança e ciúme, o que deu muita credibilidade à interpretação.



O Tonio do barítono Lucio Gallo esteve muito bem, apesar de o papel ser pequeno.


Apenas o barítono Elliot Madore esteve aquém dos restantes solistas. Fez um Sílvio cenicamente interessante mas de voz pequena e pouco expressiva.


Um espectáculo muito agradável!







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PAGLIACI, Opernhaus Zürich, January 2013

Pagliaci with music and libretto by Ruggero Leoncavallo, is a masterpiece of Italian verismo, where fiction is indistinguishable from reality. In a group of commedia dell'arte, Nedda, the young wife of Canio, the clown, is in love with Silvio, a young peasant. Tonio, a member of the group, is rejected by Nedda and denounces her to her husband Canio. At the end and during the performance of the comedy, he kills them, ending the show and the opera with the expression "La commedia è finita."

The staging of Grischa Asagaroff is very attractive, full of color, with acrobats and all the proper environment for the plot. Also the action on stage and the scenarios are very effective.

Conductor Alexander Vedernikov offered us a nice direction of the work.

Soprano Elena Mousc was excellent as Nedda. The voice is powerful, refined and expressive. The action on stage was also of great artistic level.

Tenor Zoran Todorovich has an excellent, powerful voice and a very pleasing timbre. He offered us a Canio torn by distrust and jealousy, which gave much credence to the performance.

Baritone Lucio Gallo was a very good Tonio, despite the role being small.

Only baritone Elliot Madore was behind the other soloists.He was a Silvio with a small and not very expressive voice.

A very enjoyable performance!

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Terça-feira, 21 de Maio de 2013

JOVENS MÚSICOS ABREM O ANO DA ALEMANHA NO BRASIL COM CONCERTO NO THEATRO MUNICIPAL DE SÃO PAULO.


CRÍTICA DE ALI HASSAN AYACHE NO BLOG DE ÓPERA E BALLET.




 Para comemorar a abertura oficial do Ano da Alemanha no Brasil tivemos no dia 14 de Maio um concerto no Theatro Municipal de São Paulo. Um misto entre jovens alemães e brasileiros compuseram a Orquestra Lanxess Yong Euro Classic , eta nome bonito pra uma orquestra. Engravatados de todos os lados e madames muito bem vestidas foram a presença majoritária no evento.
O que escrever sobre uma orquestra recém formada de jovens músicos? Primeiro tenho que elogiar a coragem do programa, poderiam colocar um repertório fácil , com trechos famosos de óperas e valsinhas de Strauss. Optaram pela dificuldade e mandaram Von Weber, Villa-Lobos , Mozart e Brahms. Para aprender os jovens tem que encarar os grandes compositores, essa é a regra.



Erros foram muitos, desafinadas ocorreram aos montes, tudo perdoável para uma orquestra de jovens sem o menor entrosamento. Como sempre os metais pecaram mais que os outros naipes. O esforçado maestro conseguiu arrancar, com muito trabalho, uma sonoridade interessante em diversas passagens do concerto, principalmente com as cordas.
A abertura da ópera O Franco Atirador de Von Weber mostrou metais assassinando a partitura. Música alemã com força e potência exige tudo desse naipe, que se perdeu com a juventude dos moços. A Bachiana número 5 de Villa-Lobos interpretada pelo soprano Rosana Lamosa foi a sensação da noite. Lamosa exprimiu uma voz lírica com agudos claros e coloraturas tímidas. A bela música de Villa-Lobos agrada aos ouvidos e mesmo o soprano inventando moda no final da partitura , cantando com a boca fechada, surtiu um efeito interessante.
A Exsultate Jubilate de Mozart mostrou uma orquestra em boa cadência e o soprano com voz consistente apesar de alguns desencontros com a orquestra.
Quando vi o respeitável público, todos com roupas chiquérrimas e de grifes famosas, no teatro imaginei que a grande maioria mostraria a cara e se mandaria no intervalo. Pensei que era um evento social onde as pessoas vão com outros interesses e a música é só um detalhe. Quebrei a cara, a grande maioria ficou para a segunda parte. A Sinfonia número 1 de Brahms teve algumas desafinadas, as madeiras pecaram no volume e os metais na sonoridade. Destaque para o belo solo de violino da Spala alemã, muito aplaudido, erroneamente pelo público entre um movimento e outro.

Sábado, 18 de Maio de 2013

MENDELSSOHN na Fundação Gulbenkian — 17.05.2013


(Review in English below)


A FCG apresentou ontem o Concerto para Violino e Orquestra em Mi menor, op. 64 de Felix Mendelssohn Bartholdy. A obra estreada em 1845 e dedicada ao violinista e seu grande amigo Ferdinand David viria a ser a última obra para orquestra do compositor que faleceria precocemente em 1847. É um concerto que tem alguns pormenores originais na sua forma, que é um exemplo claro de um romantismo “clássico” e um dos mais belos concertos escritos para o mais pequeno dos instrumentos de cordas.


A interpretação ficou a cargo da jovem violinista russa Alina Pogostkina e foi de qualidade, embora não assombrosa. É expressiva, esteve bem coordenada com a orquestra e revelou o seu virtuosismo com seu fraseado melódico fácil, sobretudo no andamento intermédio. Como encore tocou J. S. Bach com destreza e elegância.


Em seguida ouviu-se uma obra poucas vezes interpretada, mas que é extremamente interessante: Sonho de uma Noite de Verão, op. 61 (Ein Sommernachtstraum). A peça tem a sua famosa Abertura em Mi Maior, op. 21, composta quando Mendelssohn tinha apenas 17 anos e que mostrava o rasgo de génio do alemão. Todavia, a música incidental a propósito da comédia de William Shakespeare foi escrita apenas em 1843 a pedido do rei Frederico Guilherme IV da Prússia. O seu andamento mais famoso e que está no ouvido de todos é a Marcha nupcial e o texto da obra é, grandemente, para ser dito por um narrador.


O narrador foi o norte-americano Mervon Metha. A sua interpretação foi de enorme qualidade com uma voz muito bem modulada consoante o texto. Emprestou, também, uma expressão corporal muito adequada e esteve muito acertado no tempo com a orquestra.


Ana Maria Pinto foi o soprano. A sua voz tem um timbre muito agradável, esteve muito afinada e com a voz bem projectada e sempre audível apesar de colocada atrás da orquestra.


Carolina Figueiredo foi o mezzo-soprano. Não tem, em minha opinião, um timbre muito melódico, por ser um pouco áspero e os seus agudos pareceram-me esforçados. Mas o papel é demasiado pequeno para uma apreciação categórica.

O Coro Gulbenkian esteve, uma vez mais, num nível de qualidade superior.
Também Lawrence Foster e a Orquestra Gulbenkian estiveram ontem num bom nível.

Esperamos, agora que restam Falstaff e Otello de Giuseppe Verdi, que a Orquestra e Lawrence Foster nos presenteiem com interpretações de qualidade elevada, até para que Foster se possa despedir do cargo de maestro titular da FCG em beleza.

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(Review in English)

The FCG presented yesterday the Concerto for Violin and Orchestra in E minor, op. 64 of Felix Mendelssohn Bartholdy. The work premiered in 1845 and dedicated to his close friend and violinist Ferdinand David was to be the last work for orchestra of the composer who pass away in 1847. It is a concert that has some original features in its shape, which is a clear example of "classic" romanticism and one of the most beautiful concertos ever written for the smallest of the stringed instruments.
The interpretation was borne by the young Russian violinist Alina Pogostkina that was of good quality, though not outstanding. She was expressive, well coordinated with the orchestra and revealed her virtuosity with her easy melodic phrasing, especially in the second movement. As encore, she played J. S. Bach with skill and elegance.

Then there was a work rarely played, but of extremely interest: A Midsummer Night’s Dream, op. 61 (Ein Sommernachtstraum). The piece has its famous Overture in E Major, op. 21, composed when Mendelssohn was only 17 that show the stroke of genius of the German composer. However, the incidental music about William Shakespeare’s comedy was written only in 1843 at Prussian King Frederick William IV request. Its most famous and worldwide known movement is the Wedding March and the text of the work is greatly to be told by a narrator.
The narrator was the American Mervon Metha. His performance was of great quality with a voice well modulated depending on the text. Lent also a very appropriate body language and was very settled in time with the orchestra.
Ana Maria Pinto was the soprano. Her voice has a very pleasant timbre, was very in tune with the voice always well projected and audible though she was placed behind the orchestra.
Carolina Figueiredo was the mezzo-soprano. She hasn’t, in my opinion, a very melodic timbre that was a little rough and her high notes was too forced. But the role is too small for a categorical assessment.
The Gulbenkian Choir was again at a high quality standard as well as Lawrence Foster and the Gulbenkian Orchestra.

Hopefully, now that only left Falstaff and Otello by Giuseppe Verdi this season, the Orchestra and Lawrence Foster will present us magnificent interpretations, up to Foster to dismiss beautifully the post of principal conductor of the Gulbenkian Foundation.

Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

RIGOLETTO, Deutsche Oper, Berlim, Abril / April de 2013


(review in english below)

Rigoletto, uma das óperas mais populares de G. Verdi, já foi vista pelos Fanáticos muitas vezes e há várias apreciações de diferentes produções ao longo do blogue. Mas, um dos atractivos da ópera é que há sempre a possibilidade de nos depararmos com algo de totalmente inesperado e surpreendente, como me aconteceu desta vez.

Se acha que a recente encenação do Rigoletto do São Carlos foi má (e eu acho, como já comentei no blogue há poucos dias), então fique a saber que em Berlim acaba de estrear uma ainda pior!

A nova produção da Deutsche Oper é, simplesmente, horrorosa! Foi a pior encenação (de Jan Bosse) das já muitas a que assisti.

Quando nos sentamos, vemos a orquestra no local habitual e no palco estão cadeiras de plateia e balcão idênticas àquelas em que estamos sentados. As pessoas (são os elementos do coro) vão chegando e vão-se sentando, como se de espectadores se tratassem. Mas as senhoras vestem todas saias iguais.




O Duque de Mântua vem vestido com calças justas de cabedal, camisa estampada muito garrida, luvas sem dedos, um grande colar e sapatos de tacões altos e muitas aplicações metálicas. O Rigoletto aparece com um fato completo de coelho feito de finas tiras de material prateado idêntico ao que se usa para enfeitar as árvores de natal. Permanece nesta figura durante quase todo o primeiro acto. Monterone está sentado na plateia onde estão os espectadores verdadeiros e daí lança a maldição. Algumas cadeiras da plateia falsa elevam-se e a Gilda aparece no quarto que mais parece uma casa de prostituição. Quando a vão raptar, os elementos do coro surgem todos de negro e com a cara também tapada, mas alguns de tronco nú. E no início do 2º acto, quando Rigoletto procura a filha no palácio (sempre tudo passado na plateia falsa), os homens do coro estão vestidos com as saias das mulheres que aparecem inicialmente.
Enfim, não vou continuar, é uma encenação totalmente disparatada, sem o menor interesse estético, sem sentido algum e termina com os cantores vestidos à maneira actual e o palco totalmente vazio!


Enfim, um espectáculo para se ver de olhos bem fechados!!

O maestro Moritz Gnann dirigiu de forma superior a Orquestra da Deutsche Oper e o Coro, tão importante nesta ópera, foi também excelente.

O Duque de Mântua foi interpretado pelo tenor coreano Yosep Kang. Esteve bem, tem uma voz poderosa, com agudos aparentemente fáceis e ouve-se sempre sobre a orquestra. Achei que lhe faltou um pouco de emotividade interpretativa.


 O barítono polaco Andrzej Dobber foi um Rigoletto magnífico. Tem um vozeirão, o timbre é muito bonito e, este sim, imprimiu grande emotividade vocal à sua interpretação. É de louvar ainda mais o seu trabalho, no contexto disparatado da encenação e da forma como a sua personagem foi aparecendo.


A Gilda do soprano inglês Lucy Crowe também esteve muito bem. A cantora tem uma boa presença, faz uma interpretação convincente mas, no registo mais agudo, embora perfeitamente audível, perde um pouco da qualidade.


O baixo austríaco Albert Pesendorfer foi um Sparafucille com boa presença cénica e vocal e a irmã Maddalena foi interpretada pelo excelente mezzo francês Clémentine Margaine, que também fez a Giovanna.



Este conjunto de solistas, numa produção minimamente aceitável, teria brilhado de outra forma e, até para eles, teria sido mais digno. Assim foi um total desperdício num espectáculo vergonhoso!





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RIGOLETTO, Deutsche Oper, Berlin, April 2013

Rigoletto, one of the most popular operas of G. Verdi, has been viewed by us and there are multiple assessments of different productions over the blog. But one of the attractions of the opera is that there is always the possibility to come across something totally unexpected and surprising, as it happened this time.

If you think the recent staging of Rigoletto at the São Carlos was bad (and that is my opinion as I wrote in this blog), so get to know that the Berlin´s production is worse!

The new production of Deutsche Oper is simply awful! It was the worst staging (Jan Bosse) among many of which I attended.

When we sit, we see the orchestra in the usual place. On the stage and audience with rows of chairs identical to those in which we are sitting. People (they are the elements of the choir) are arriving and will be sitting, as if they were spectators. But all the ladies wear identical skirts.

The Duke of Mantua comes dressed in leather tights, very garish printed shirt, fingerless gloves, a great necklace and shoes, high heels and lots of metal applications. Rigoletto appears with a complete suit rabbit made of thin strips of silvery material identical to that used to adorn Christmas trees. He remains so almost throughout the first act. Monterone is sitting in the audience where the true spectators are and casts the curse. Some chairs of the fake audience elevate and Gilda appears in the room that looks more like a house of prostitution. In the abduction scene the elements of the choir are all in black and have their face also covered, but some in the naked torso. And at the beginning of the 2nd act when Rigoletto is searching his daughter in the palace (where everything happens in the fake audience), the men of the chorus are dressed in skirts of the women who initially appear.
I will not continue, it is a totally preposterous scenario, without the slightest aesthetic concern, meaningless and ends with the singers dressed like the true spectators and the stage totally empty!

A
performance to see with your eyes wide shut!

Maestro Moritz Gnann directed very well the Deutsche Oper Orchestra and Chorus. The chorus is very important in this opera, and was excellent.

The Duke of Mantua was interpreted by Korean tenor Yosep Kang. He was good, has a powerful voice with seemingly easy top notes and could always be heard about the orchestra.
I thought he lacked a bit of emotion.

Polish baritone Andrzej Dobber was a magnificent Rigoletto. He has a booming voice, the timbre is very beautiful, and showed vocal emotion during his interpretation. I welcome further their work in the context of staging he had to perform and the way his character was appearing.

English soprano Lucy Crowe was very good Gilda. The singer has a good presence, gave a convincing interpretation but the top register, though perfectly audible, lost some quality.

Sparafucille was Austrian bass Albert Pesendorfer. He had a good stage and vocal presence. His sister Maddalena was interpreted by great French mezzo Clémentine Margaine, who also was the Giovanna.

This group of soloists in a production minimally acceptable, would have been brighter in another way, and even for them, it would have been more adequate. This production was a total waste and a shameful spectacle!

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Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

ROMÉO ET JULIETTE de Hector Berlioz — FCG, 9.05.2013


A Sinfonia dramática Roméo et Juliette, op. 17, H.79 de Hector Berlioz (1803-1869) foi apresentada, pela primeira vez, em Novembro de 1839 em Paris sob direcção do próprio compositor. O libreto de Émile Deschamps é baseado no drama homónimo de William Shakespeare.


Trata-se de um dos mais originais e brilhantes trabalhos do compositor que ficou extasiado após assistir a uma versão teatral de Romeu e Julieta em Paris em 1827. A sua composição foi patrocinada com 20.000 francos por Niccoló Paganini, a quem Berlioz dedicaria a obra. Para grande pesar de Berlioz, Paganini viria a falecer em Nice antes de ler a partitura final daquela que, para o francês, era “se me perguntarem qual a minha obra preferida, a minha resposta será a de que partilho a visão da maioria dos artistas: eu prefiro o Adagio (cena de morte) no Roméo et Juliette”. De facto, este Adagio é de uma extrema beleza e altamente imagético: pode ler-se um guião no diálogo entre o clarinete (Julieta) e os violoncelos (Romeu) na cena da morte. A obra serviu, aliás, de inspiração a Richard Wagner para o seu Tristan und Isolde que assistiu à primeira representação, sendo que o próprio Wagner enviou a Berlioz uma cópia da sua ópera com a inscrição “Para o meu caro e grande autor de Roméo et Juliette, do grato autor de Tristão e Isolda”.


A Orquestra Gulbenkian e Coro Gulbenkian apresentaram-se em muito bom nível e notoriamente bem preparados para a interpretação desta longa e difícil obra, muito bem dirigida pelo maestro titular cessante Lawrence Foster. Berlioz disse “que esta obra é extremamente difícil de executar” e acrescentava que só com longos ensaios e artistas de primeira qualidade e com a dedicação que merece uma ópera se atingiria uma boa récita. Creio, pois, ter-se atingido esse nível.


O mezzo-soprano francês Marianne Crebassa foi Juliette. O seu timbre não é especialmente belo ou escuro, mas a sua potência e capacidade de projecção são assinaláveis, e é bastante expressiva. Teve uma prestação de muito bom nível.

O tenor português Carlos Cardoso foi Roméo. A sua voz tem um timbre bonito, mas faltou-lhe alguma potência para se fazer ouvir sobre a orquestra, revelando algumas dificuldades na projecção. Ainda assim, a sua prestação foi de qualidade.

O papel mais interessante e longo da obra é para Frei Laurêncio que foi interpretado pelo baixo-barítono polaco Daniel Kotlinski. O texto que lhe cabe é extenso e de enorme qualidade com uma mensagem forte e exige uma boa capacidade interpretativa. Kotlinski conseguiu-o muito bem com uma voz bem projectada, apesar de algumas dificuldades menores nos graves, mas com agudos fáceis e que se conseguiam ouvir por cima de uma orquestra e coro de grandes dimensões. A interpretação foi, pois, de muito boa qualidade, tendo sido o solista em destaque da noite.


Assistiu-se, assim e uma vez mais, a um excelente espectáculo na FCG, com uma obra pouco interpretada. Uma vez mais o Coro Gulbenkian mostrou a sua qualidade internacional e a Gulbenkian, com a sala com o fundo aberto para o jardim, exibiu um dos mais belos locais para se ouvir música a nível mundial.

Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

RIGOLETTO, Teatro de São Carlos, Maio de 2013


(review in english below)

 Rigoletto, de G. Verdi, foi a última ópera da trilogia do compositor a que assisti este ano no nosso Teatro Nacional de Ópera. Deixo também aqui a minha breve opinião (quase tudo já foi dito e comentado anteriormente) que difere em alguns pontos da do meu amigo e colega de blogue camo_opera. Assisti à récita de estreia, dia 3 de Maio.

Achei a encenação de Francesco Esposito grotesca, a pior da trilogia. Nada tem a ver com a obra original. Logo no início a cena no palácio com padres, coelhinhas playboy e toda a sorte de outras personagens a despropósito deu o mote ao que se iria seguir. Foi sempre bera, mas outro ponto alto no mau gosto foi a cena inicial do último acto, na estalagem, que é uma casa de prostituição e, entre outras situações, quando Marullo se prepara para que uma das “meninas” lhe faça sexo oral, verifica que, afinal, é um travesti e foge do quarto. Fantástico em originalidade e bom gosto, não acham?
Foi uma encenação que me fez lembrar, frequentemente, o período Cristoph Dammann no São Carlos!


A direcção musical de Martin André foi “empastelada” e o maestro, mais uma vez, foi excessivamente ruidoso, perturbando a audição da música. Disseram-me que está de saída. Na minha opinião, a perda não será muito grande.

Rigoletto foi interpretado pelo barítono Piero Terranova. Esteve bem, embora no final tenha quebrado um pouco. A voz é decente, o timbre agradável e a representação foi aceitável. No final do 1º acto não cantou tudo, nomeadamente, quando chama por Gilda depois do rapto, mas enfim…


O soprano Romina Casucci foi uma Gilda desinteressante, com voz audível, embora denotando fragilidade nos agudos. A ária Caro nome não lhe saiu bem, tal como a maioria dos duetos.


 Um desastre foi o tenor Alessandro Liberatore como Duque de Mântua. Voz fraca, excessivamente nasalada mas, sobretudo, quase sempre desafinado. Esteve constantemente mal mas no La donna è mobile foi confrangedor ouvi-lo. O João Baptista disse o essencial no comentário que deixou ao texto do camo_opera.


Outro cantor que esteve aceitável foi o baixo Giovanni Furlanetto como Sparafucile. Não tendo uma potência vocal elevada mas o registo grave é interessante e, cenicamente, foi um dos melhores.


A interpretação do mezzo Agostina Smimmero foi desinteressante. Fez uma Maddalena com fraca projecção vocal. A figura e a encenação também  não ajudaram em nada.


Mais uma vez, os cantores portugueses foram arrastados para os papéis secundários mas estiveram muito bem, sobretudo Mário Redondo como Conde de Monterone, mas também João Merino como Marullo, Luís Rodrigues como Conde de Cepano e Marco Alves dos Santos como Matteo.


Continuo a não perceber por que razão não se dão os papéis solistas aos portugueses.



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RIGOLETTO, Teatro de São Carlos, May 2013

Rigoletto by G. Verdi was the last opera of the composer´s trilogy that I watched this year in our National Opera Theater. This is my opinion about this production that is different in several aspects from that of my friend and blog colleague camo_opera.

The staging of Francesco Esposito was grotesque, the worst of the trilogy. Early on the scene the tone to what would follow was given at the palace with priests, playboy bunnies and all sorts of other nonsense characters to the set. It was always bad, but another high negative part was the opening scene of the last act, the inn, which is a house of prostitution and, among other situations, when Marullo prepares for a oral sex scene with a "girl" he realises that “she” is a travesty and flees the room. Fantastic in originality and decency, is it not?
It was a performance that reminded me often the Christoph Dammann period in São Carlos!

The musical direction of Martin André was boring and the conductor, once again, was excessively noisy, disturbing the hearing of the music. They told me that he is leaving the theater. In my opinion, the loss will not be significant.


Rigoletto was played by baritone Piero Terranova. He was good, although in the end he has broken a bit. The voice is decent, pleasant timbre and on stagew he was convincing. At the end of the 1st act he did not sing everything, especially when he should call by Gilda after the abduction, but anyway ...

Soprano Romina Casucci was a not ery exciting Gilda, with clear voice, although losing quality in the high register. She was not efficient in the aria Caro nome and in most of the duets.

A disaster was tenor Alessandro Liberatore as the Duke of Mantua. A weak voice, overly nasal, but above all, almost always out of tune.

Another singer who did well was bass Giovanni Furlanetto as Sparafucile. He does not have a high vocal power but is tone in low register is interesting. His artistic performance was one of the best.

The performance of mezzo Agostina Smimmero as Maddalena was not interesting. She had a weak vocal projection.The figure and the staging had not helped anything.

Again, the Portuguese singers were drawn into secondary roles but were very good, especially as Mário Redondo as Count Monterone, but also João Merino as Marullo, Luís Rodrigues as Count of Cepano and Marco Alves dos Santos as Matteo.

I still do not understand why the soloist roles are not given to the Portuguese singers.

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